Regular Show

Em tempos de Ben 10, Bakugan, e todas essas adaptações medíocres dos quadrinhos para a linguagem preguiçosa dos dias de hoje, é confortante ver uma boa animação por aí. Poucas delas duram mais que duas temporadas, é verdade, mas algumas sobrevivem bravamente na programação da TV a cabo. Um bom exemplo é um título que há mais de um ano faz sucesso no Cartoon Network gringo, e que acaba de dar as caras por aqui: Regular Show.

Como o título já explica, a trama nada mais é que medíocre. Para os desavisados, pelo menos. O tal do show comum (que chegou ao Brasil com o nome equivocado de “Apenas um Show) conta a história de dois amigos, Mordecai e Rigby. O pássaro e o guaxinim trabalham em um parque como zeladores, mas a típica procrastinação dos jovens na casa dos vinte e poucos impede os dois de fazer algo mais que jogar videogame e enrolar o dia todo. Mas a aparência de calmaria engana. Os episódios, que sempre começam como o dia de qualquer pós-adolescente, acabam engolidos numa reviravolta cósmica surpreendente.

Um dos meus episódios favoritos é “But I have a recipt”, em que Mordecai e Rigby compram um RPG para a noite de jogos do parque. Porém, conforme jogam, vão esbarrando nas complicações previsíveis de todo mundo que um dia tem a infeliz idéia de se aventurar com esses jogos de regras autoritárias e tramas confusas. A cena é hilária e remete à adolescência de todo mundo que já foi nerd um dia. A diferença é que os dois fazem o que ninguém nunca teve coragem de fazer: voltam à loja com o jogo debaixo do braço pedindo por um reembolso. Depois de muita discussão com o balconista, de alguma forma a briga é transmitida para dentro do jogo, onde os bichos arriscam as próprias vidas pelos US$ 6 investidos no tabuleiro e nas figuras de ação do frustrante RPG.

A série já está no início da terceira temporada. O sucesso é resultado do que acontece quando o Cartoon Network decide fazer algo de interessante fora do Adult Swim, e dar às crianças o que elas mais querem, que é o conteúdo adulto. Sem pornografia, sem palavrões – só uma história que é despretensiosa, divertida e recheada de piadas inteligentes. Regular Show é mais um daqueles desenhos animados que assistíamos hipinotizados quando crianças, sem entender a razão do nosso fascínio. Ver os protagonistas procurando ingressos para o show de uma banda de rock, jogando Atari ou apenas numa jornada em busca de um pedaço de bolo me transferiu de volta para o tempo em que eu via O Laboratório de Dexter, A Vaca e o Frango ou Dois Cachorros Bobos, sem ter noção da origem da maioria daquelas piadas.

Talvez o grande segredo do frescor da série esteja na mente do criador, J.G.Quintell. Com apenas 29 anos, ele é o responsável pela direção, roteiro e até mesmo pela voz do pássaro Mordecai. A história de Regular Show, segundo ele mesmo admitiu, tem muito da experiência que ele viveu nos anos de faculdade: os episódios são recheados de referências aos anos 1980  e às discussões sem importância do cotidiano que formavam os filmes e seriados dos anos 1990.

Depois da morte trágica de séries como Mission Hill, Regular Show pode ser mais uma chance de provar ao público que animação não divide-se apenas entre desenho animado para crianças e títulos adultos como Simpsons e Family Guy. Uma animação pode ser simples e despretensiosa, e, o mais importante, falar ao público jovem que se sente órfão desde que cresceu demais para acompanhar a programação do Cartoon Network.

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Sobre aleviana

Tento traduzir em texto algumas de minhas obsessões. Dispersa, idiossincrática, irritada e, claro, leviana. Como todo mundo que é isolado dos cículos sociais, dedico mais tempo a coisas obsoletas do que a coisas importantes, como trabalho, estudo, exercícios e nutrição. Excelente planejadora, mas impedida pela procrastinação interminável. Escrevo quando quero. Quando não quero, faço outra coisa.
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Uma resposta a Regular Show

  1. Anna Reis diz:

    Eu só queria dizer, que quem não tem peito pra jogar um bom RPG, GTFO! 😀
    De resto, amei o blog 🙂

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